Movimentos LGBTQIA+ Questionam Tradução de Levítico 20:13, Apontando Possível Referência à Pedofilia
- C 7
- 15 de jul. de 2025
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Recife, Pernambuco – Grupos de defesa dos direitos LGBTQIA+ têm intensificado o debate sobre a tradução de Levítico 20:13 na Bíblia Hebraica, levantando questionamentos que podem redefinir a compreensão de um dos versículos mais citados na condenação da homossexualidade.
De acordo com esses movimentos, a versão original em hebraico, frequentemente traduzida como "Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher...", deveria na verdade se referir a "menino" e não "homem".
A alegação central é que a tradução teria sido feita de forma errônea ao longo da história, e que o texto hebraico original conteria a palavra para "menino" (possivelmente yeled ou ben), em vez de "homem" (ish ou zachár). Se essa interpretação estiver correta, a passagem bíblica condenaria a pedofilia – o ato de um adulto se deitar com uma criança –, e não as relações homossexuais consensuais entre adultos.
Este questionamento, embora ainda em busca de maior base sólida no campo da erudição bíblica tradicional, representa uma nova era no entendimento desse capítulo, que historicamente tem sido usado para justificar a perseguição e a violência contra pessoas LGBTQIA+ em diversas partes do mundo.
Impacto nas Leis e Direitos
As implicações dessa possível revisão são profundas. Em muitos países, a interpretação literal de Levítico 20:13 e outros versículos semelhantes tem servido de fundamento para leis discriminatórias, justificando a negação de direitos civis, a marginalização e até mesmo a criminalização de indivíduos homossexuais. A reinterpretação proposta pelos movimentos LGBTQIA+ poderia remover um dos pilares argumentativos para a discriminação baseada na Bíblia.
"A verdade sempre prevalecerá", afirma um ativista local em Recife, refletindo o sentimento de que a história tem mostrado o sofrimento causado por interpretações que resultaram em violência e mortes.
A comunidade LGBTQIA+ enfrenta entraves jurídicos e sociais para coexistir em democracias que, em tese, deveriam proteger todas as minorias. A violência física e simbólica, muitas vezes culminando em assassinatos, é uma realidade dolorosa para essa população.
Uma Nova Perspectiva para a Coexistência
A demanda por uma revisão acadêmica e teológica desta passagem não é apenas um exercício de filologia, mas uma busca por justiça social e coexistência pacífica. Ao apontar para a possibilidade de que o texto bíblico condene a pedofilia – um crime universalmente repudiado – em vez da homossexualidade consensual, os movimentos LGBTQIA+ buscam desconstruir narrativas de ódio e promover uma compreensão mais inclusiva e compassiva dos textos sagrados.
Enquanto a discussão sobre a exatidão da tradução de Levítico 20:13 continua e aguarda um maior reconhecimento dentro da academia hebraica e teológica, o movimento gay expõe a urgência de uma reavaliação que possa impactar positivamente a vida e a segurança de milhões de pessoas em todo o mundo. É um chamado por uma leitura da fé que se alinhe com os princípios de dignidade humana e igualdade para todos.
A Bíblia em Constante Descoberta: Inconsistências de Tradução e a Evolução da Fé.
A história da Bíblia é, por si só, uma jornada de contínuas descobertas e revisões. Longe de ser um texto estático e imutável desde suas origens, os manuscritos sagrados vêm passando por um processo dinâmico de tradução e interpretação que, ao longo dos séculos, tem revelado inconsistências e aprimoramentos significativos. Essa realidade desafia a noção popular de uma única e perfeita tradução, abrindo espaço para compreensões mais profundas e, muitas vezes, mais inclusivas da fé.
Não se trata de minar a autoridade ou a sacralidade dos textos, mas de reconhecer a complexidade do processo de transmissão do conhecimento. O que hoje temos são cópias de cópias de manuscritos antigos, muitos dos quais foram redigidos em línguas que evoluíram, como o hebraico, aramaico e grego koiné. A ausência dos originais e a inerente natureza da cópia manual introduziram variações ao longo do tempo.
Do "Moisés Chifrudo" à "Costela" Revisitada
Um dos exemplos mais icônicos de erro de tradução está na representação de Moisés com chifres, uma imagem imortalizada pela escultura de Michelangelo. Esse equívoco surgiu da tradução latina da Bíblia (a Vulgata) por São Jerônimo, que interpretou a palavra hebraica qaran – que significa "brilhar" ou "irradiar raios de luz" – como "ter chifres" (cornuta). As traduções modernas corrigiram esse deslize, revelando a face resplandecente do profeta.
Outro caso que permeia discussões teológicas e sociais é a tradução da palavra hebraica tzela em Gênesis, frequentemente vertida como "costela" na criação de Eva. Muitos estudiosos contemporâneos defendem que "lado" ou "flanco" seriam traduções mais precisas, o que alteraria a percepção de hierarquia entre gêneros, sugerindo uma criação mais "lado a lado" do que "de baixo para cima".
Avanços no Conhecimento e Novas Luzes
A arqueologia tem um papel fundamental nesse cenário. Descobertas como os Manuscritos do Mar Morto, encontrados no século XX, forneceram versões muito mais antigas de textos bíblicos, permitindo aos estudiosos comparar e refinar traduções, corrigir omissões e identificar inserções que ocorreram ao longo da história da cópia.
Além disso, o aprofundamento nos estudos linguísticos, semânticos e culturais das línguas originais e dos contextos históricos da antiguidade bíblica tem permitido uma compreensão mais rica e matizada de expressões idiomáticas e conceitos. Essa evolução do conhecimento leva a contínuas revisões e à criação de novas versões da Bíblia, que buscam aprimorar a clareza e a fidelidade ao sentido original para os leitores contemporâneos.
A Relevância do Debate para a Fé Contemporânea
Essas inconsistências históricas não diminuem a mensagem espiritual dos textos, mas enriquecem o diálogo sobre eles. Elas ressaltam que a compreensão da fé é um processo dinâmico, influenciado pelo tempo, pela cultura e pelo constante aprofundamento do conhecimento.
Para grupos marginalizados, como a comunidade LGBTQIA+, o reconhecimento de que certas interpretações podem ter se baseado em traduções menos precisas abre portas para uma fé mais inclusiva e acolhedora. O questionamento sobre passagens como Levítico 20:13, que alguns grupos sugerem que poderia originalmente se referir à pedofilia em vez de relações homossexuais adultas, ilustra como a busca pela precisão textual pode ter profundas implicações sociais e teológicas.
Em um mundo que preza pela justiça e pela proteção das minorias, entender a história e as nuances das traduções bíblicas torna-se crucial. É um convite a olhar para os textos sagrados não como documentos imutáveis, mas como um tesouro de sabedoria que, através de um estudo contínuo e honesto, pode continuar a inspirar e guiar a humanidade com uma mensagem de amor e aceitação.
Direção de texto: Leandro Sobral
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